Datas vencidas

em 28/fev/2013 em Crônicas por Dennys Távora | Sem comentários »

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por Dennys Távora

 

Geladeira lotada. Guardei pouco mais da metade das compras do supermercado e não há lugar para mais nada.

Começo a vasculhar as prateleiras para encontrar o que delas posso retirar para abrir espaço ao que acabou de chegar.

Atrás de tudo, sempre bem lá no fundo, encontro potes com pequenos restos de feijão, berinjela, quiabo e vagem, que não quis jogar fora, mas nem sei há quanto tempo estão lá. Há também um litro de leite lacrado, mas com data vencida, embora eu só use leite em pó.

Já devia ter me livrado disso tudo há meses. Parece mania de conservar coisas que o tempo tornou inservíveis, como aquele trem elétrico que me recusei a dar ao meu sobrinho há mais de vinte anos atrás, acalentando o sonho de um dia ver um filho meu brincar como ele como eu fazia nos meus tempos de criança.

Agora, com quase cinquenta anos, esvaziando a geladeira, dou-me conta de ter sido inútil conservar por tantos anos aquele trem elétrico. Dá-lo ao meu sobrinho era a última oportunidade daquele brinquedo continuar a exercer o seu papel de divertir. O meu coração, contudo, como se estivesse há dias no congelador, não quis cedê-lo. Hoje, é um brinquedo com data vencida. Na era dos eletrônicos, um filho meu não se interessará por aquela peça de museu.

Para minha sorte, ao menos a data de ter um filho ainda não venceu. Porém, neste momento, percebo que ele terá a infância dele, não a minha, andará sobre os trilhos que escolher e viverá as suas próprias experiências para crescer, como deve ser.

Quanto ao velho trem elétrico, apesar de não mais ser capaz de divertir as novas gerações, ainda pode ficar como símbolo de um sentimento paternal surgido antes mesmo de um filho meu vir ao mundo. Embora tenha nascido precocemente, a data de validade desse amor jamais expirará.

 

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