O meu pai me trouxe uma copa do mundo

em 01/jun/2014 em Crônicas por Dennys Távora | Sem comentários »

 

 

por Dennys Távora

 

– Pai, o senhor me traz uma copa do mundo? – Esta era a pergunta que fazia diversas vezes ao meu pai quando ele saía para trabalhar. Para evitar entendimentos equivocados, esclareço, desde logo, que o meu pai jamais foi um craque da seleção brasileira de futebol. Na verdade, sequer um bom peladeiro ele era. Porém, o que verdadeiramente importa é que ele compreendia perfeitamente as invencionices do meu vocabulário infantil e, antes do regresso ao lar, passava na padaria para me trazer uma guloseima que eu degustava com grande prazer: um singelo e saboroso pão de leite.

Estávamos em 1966, às vésperas da Copa do Mundo da Inglaterra. Eu tinha apenas três anos de idade e o Brasil já ostentava o título de bicampeão mundial de futebol pela conquista das últimas duas Copas do Mundo. Tais triunfos, porém, pouco diziam para mim e não me entusiasmavam, já que tinham acontecido antes de eu nascer. O que mais me tocava e me alegrava eram as ruas, casas e janelas enfeitadas de verde e amarelo, além do entusiasmo estampado no rosto das pessoas, sobretudo nos momentos que antecediam aos jogos. Impossível para uma criança ficar indiferente à emoção e à alegria que pairavam no ar.

O criativo nome dado por mim aos pães de leite surgiu numa certa manhã daquele período mágico, quando fui com meu pai até uma padaria perto de casa. Olhei para a vitrine de pães e logo disparei:

– Pai, quero uma copa do mundo!

Diante do olhar de espanto do meu pai, aponto o dedo para uma travessa de pães de leite e repito:

-Copa do mundo, pai! Aqueles ali!

Achando graça e rindo muito, o meu pai me compreende, nada me pergunta e atende o meu pedido. Daquele dia em diante, por muitos anos, pães de leite passaram a ser chamados em casa de copa do mundo.

Já a Copa do Mundo, aquela da Inglaterra, acabou cedo para o Brasil. Fomos eliminados na primeira fase, embora não me recorde da vitória brasileira na estreia contra a Bulgária, da inesperada derrota para a Hungria ou do talento de Eusébio e das botinadas dos portugueses em Pelé, que marcaram o triunfo dos irmãos lusitanos contra nós e a nossa breve eliminação. Desses acontecimentos e da conquista do time inglês só tomei conhecimento mais tarde. Sequer me lembro da decepção generalizada com o retorno precoce da outrora imbatível seleção canarinho e das críticas que sobrevieram. Daquele mundial, ficaram gravados no meu coração e na minha memória apenas o colorido e a alegria das ruas, além do sabor delicioso da copa do mundo, aquela da padaria, que continuei a degustar nos anos seguintes.

Curioso é que ninguém, nem mesmo o meu pai, perguntou-me a razão de eu ter apelidado os pães de leite de copa do mundo. Deviam considerar evidente a resposta, em razão, talvez, do formato arredondado daqueles pãezinhos, que os assemelhava a uma bola. Porém, nada é óbvio no universo infantil.

Há alguns dias, durante um almoço dominical, num momento em que a proximidade de uma Copa do Mundo no Brasil fez dos mundiais de futebol o assunto dominante à mesa, o meu pai me perguntou, enfim, por que eu apelidara aqueles pães de copa do mundo. Respondi-lhe que era por causa de um enorme balão vermelho que havia no centro da cidade. Sabia apenas que estava ali por causa da Copa do Mundo. Como os meus pãezinhos prediletos tinham um formato arredondado e uma coloração levemente avermelhada pelo cozimento ao forno, o meu olhar infantil, tão ingênuo quanto lúdico, de imediato fez a associação e criou o apelido.

O meu pai se espantou por eu ainda me recordar daquele balão vermelho. Afinal, eu tinha apenas três anos à época. Segundo ele, era uma propaganda para divulgar as transmissões dos jogos do mundial por uma rádio paulistana. Ficava na Praça da Sé. Da minha parte, sabia apenas que aquela espécie de bexiga gigante, maravilhosa, pairando no ar, tinha algo a ver com a Copa do Mundo, que espalhava um colorido e um entusiasmo fabulosos para mim, além de se assemelhar ao alimento que alegrava as minhas manhãs.

Já faz tempo que não saboreio uma copa do mundo, a da panificadora, mas a paixão pela Copa do Mundo, a de futebol, permaneceu e cresceu comigo. Se as quedas e as conquistas pessoais que vivenciei nada tiveram a ver com os triunfos e fracassos da seleção brasileira a cada quatro anos, os mundiais do esporte mais popular do planeta tornaram alguns momentos da minha vida muito mais belos e marcantes. Quero continuar a degustar todos, sem exceção, se não mais com a ingênua visão dos tempos de criança, ao menos com igual apetite e emoção.

Vai, Brasil!

Uma travessa de copas do mundo.

 

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