É gol de Jairzinho!

em 09/jun/2014 em Crônicas por Dennys Távora | Sem comentários »

Copa 1970 Jairzinho 2

 

 

por Dennys Távora

 

Na infância, cada celebração de mais um ano de vida tem tudo para se tornar um momento especial. No meu caso, porém, a timidez me levava a não desejar muito essas celebrações. Um singelo presente já era suficiente para não deixar a data passar em branco. Por tal razão, apesar de carregar inúmeras recordações dos tempos de criança, guardo poucas lembranças dos meus primeiros aniversários. Um deles, contudo, tornou-se inesquecível. Foi em 1970, quando completei sete anos de vida em plena Copa do Mundo.

Naquela época, morava numa pequena vila do bairro da Liberdade, na região central de São Paulo. Era formada por uma estreita rua fechada e de uso exclusivo dos moradores do local, com pequenas casas geminadas de um lado e um muro alto do outro. A ausência de trânsito e de pessoas estranhas à vizinhança dava às crianças que lá viviam o privilégio de brincarem na rua com razoável liberdade.

O dia já começara generoso com o sol brilhando e aquecendo aquela manhã do meu aniversário, a despeito do inverno bem próximo. Na nossa pequena vila e pelo país afora, dominava a ansiedade pelo jogo daquela tarde entre o Brasil e o Peru, pelas quartas de final da Copa do Mundo do México.

A vizinhança adulta, já no clima do jogo, teve a ideia de reunir a molecada da vila para uma divertida pelada de rua. Mas não bastava pegar uma bola e colocar a garotada para jogar. A ocasião merecia algo mais elaborado.

Primeiro, então, pintaram números em folhas de papel, cada um correspondendo a um jogador da seleção brasileira. Depois, pregaram os números com fita adesiva nas costas das crianças e dividiram os times.

Para minha surpresa, recebi o número 7 do Jairzinho. Quanta honra! Deram-me a camisa do artilheiro do Brasil! Logo eu, que era o menor dos meninos da rua, seria por um dia aquele que ficou conhecido como o Furacão da Copa. Francamente, pelo meu tamanho, eu poderia ser, no máximo, uma suave brisa. Mas o meu entusiasmo e alegria foram maiores do que a minha timidez, modéstia e senso crítico, tudo junto. Topei o desafio de carregar o simbólico número nas costas e ser o Jairzinho por um dia. Afinal, era o meu aniversário de sete anos.

Eu já chutava bola faz tempo, mas minhas experiências futebolísticas se resumiam, até aquele momento, a trocas de passes e de chutes a gol com meu pai e até com a minha avó, num parque ou no quintal, além de estripulias driblando os móveis de casa, que se mostraram, anos mais tarde, um ótimo treino para desenvolver a habilidade, embora levasse minha mãe à loucura. Futebol dentro de casa nunca agrada às mães.

Aquela era, porém, a minha primeira partida de futebol de verdade, se é que se pode chamar assim aquela pelada dos meninos da nossa vila. Eu estava animado pela minha estreia num campinho improvisado de rua bem no dia do meu aniversário.

A partida começou. A vizinhança toda ficou na frente das casas para apreciar, incentivar e se divertir com a criançada. Eu corria de um lado para o outro, totalmente perdido. Futebol em equipe era bem diferente do que eu imaginara. Mal conseguia tocar na bola. Pior é que ainda levava bronca dos meus companheiros de time. Ao perceber o meu abatimento, um dos adultos me chama e me fala ao pé do ouvido para ficar lá na frente, perto do gol adversário. No jargão popular, era para eu ficar na banheira e não sair de lá. Uma hora, a bola chegaria a mim e bastaria eu me virar, chutar e fazer o gol. Obviamente, em pelada não há impedimento, mas esse detalhe não fazia diferença para mim, já que ainda não compreendia essa regra. Apenas acatei a dica.

O tempo passava e nada da bola chegar a mim. Eu ficava lá, solitário, perto do gol adversário, só assistindo aos outros meninos jogarem. Mas já era um jogador taticamente disciplinado e não desobedeci à orientação do meu técnico particular.

De repente, após uma gritaria da torcida pedindo que me passassem a bola, eu a vejo rolando em minha direção. Eu paro a redonda, viro-me, olho para o goleiro e escuto os berros de toda a vizinhança pedindo que fizesse o gol. A ansiedade toma conta de mim e, por um instante, hesito, mas tomo coragem e… Vem um garoto adversário e me tira a bola.

Desmoronaram lamentações da torcida e broncas do meu time sobre mim. Senti-me arrasado. Esperei a bola chegar durante tanto tempo e, quando ela finalmente veio, fracassei. Ao menos o meu técnico particular me incentivou. Disse-me que futebol era assim mesmo e me pediu para continuar pacientemente onde estava e apenas ser mais rápido na conclusão da jogada na próxima vez. O problema é que fiquei desmoralizado com a chance desperdiçada. Perdi o gol e a confiança do meu time. Se já não me passavam a bola, agora é que seria pior! Foi mais por falta de opção do que por fé que continuei na banheira, assistindo à partida de um lugar privilegiado e esperando por um milagre.

O jogo estava empatado. Numa certa hora, após uma disputa entre dois garotos, a bola bate num deles por acaso e começa a vir novamente na minha direção. Naquele instante, vi apenas a bola, o goleiro e o gol. Era a minha nova chance. Eu paro a redonda, dou meia volta, ignoro a gritaria ansiosa dos torcedores, concentro-me, chuto rápido e… É gol! Os meus companheiros de equipe me abraçam, a vizinhança eufórica invade a rua e me levanta nos braços. Todos gritam: Jairzinho! Jairzinho! Jairzinho!

Não foi um chute forte, é bem verdade, mas foi rasteiro e bem colocado, longe do alcance do goleiro. Pode não ter sido um golaço do ponto de vista estético, mas a emoção que senti era a de ter marcado um gol digno de entrar para a galeria dos mais belos de todos os tempos. Pelo menos era o mais bonito que eu tinha feito até aquele instante. Era o meu primeiro gol. Foi incrível! Apesar de não jogar no meu time de coração, Jairzinho se tornou naquele momento o meu primeiro ídolo no futebol.

Retomado o jogo, já não ficava mais tão livre no ataque. Havia sempre um adversário de olho em mim. Enfim, conquistara respeito em campo e até algumas bolas me passavam. Numa delas, disputei a jogada com garra, mas a desvantagem do menor tamanho levou-me ao desequilíbrio. Para não cair, tentei me apoiar no muro alto que havia do lado oposto às casas, mas dei azar. Acabei por furar a mão ao coloca-la sobre um prego.

A consternação geral pelo meu ferimento foi tamanha que decidiram encerrar o jogo. O fim antecipado da brincadeira foi frustrante, mas me tornou o autor do gol da vitória do meu time. Viva! O feito heroico até amenizava a dor sentida pelo machucado na minha mão.

O que se seguiu foi uma corrida dos meus pais para me levarem à farmácia, a fim de limparem o ferimento e me fazerem um curativo. Vacina antitetânica não foi necessária, já que havia me vacinado recentemente. Nunca tive medo de injeção, mas furo na mão e no traseiro em pleno aniversário seria demais!

A pressa era grande. Queríamos voltar logo para casa a fim de não perder um minuto sequer do jogo do Brasil na Copa, que começaria logo mais. Felizmente, deu tempo de sobra.

No meu aniversário de sete anos, não houve bolo, nem docinhos, nem salgados. Houve presentes? Só me recordo do melhor e mais belo deles, que foi a vitória do Brasil contra o Peru pelo placar de 4 a 2, com um gol de Jairzinho no final, para minha alegria. Dos gols do Jairzinho, na minha vila e no México, na manhã e na tarde daquele dia, jamais me esqueci!

Copa 1970 Jairzinho PeruJairzinho dribla o goleiro e faz o quarto gol do Brasil contra o Peru.

Deixe um comentário