Como é bom festejar a Copa!

em 27/jun/2014 em Crônicas por Dennys Távora | Sem comentários »

copa 1970 brasil x italia tostao pele

 

 

por Dennys Távora

 

Copa de 70, dia da final entre o Brasil e a Itália, dois bicampeões mundiais. Quem vencesse pela terceira vez tomaria posse definitiva da taça Jules Rimet. A expectativa e a confiança da torcida brasileira eram enormes. Apesar do país se encontrar sob uma ditadura militar, o clima era de festa. Até quem se opunha ao regime e receava o uso político de uma vitória do escrete canarinho, àquela altura já se rendia à paixão futebolística, à identificação com o nosso jeito alegre de jogar e ao talento dos nossos craques. Para um brasileiro, a despeito da tirania reinante no país, era inevitável torcer pela sua seleção. Efetivamente, teria sido um grande erro desperdiçar aquele momento, pois politizar a Copa é uma grande bobagem.

Eu era ainda criança. Das complicações da política, nada sabia. Naquele dia, o meu pequeno coração mal cabia no peito, já batia acelerado e ansiava pela passassem rápida das horas para logo começar o jogo decisivo daquela tarde.

Era um domingo cinzento, típico do inverno paulistano, mas o brilho nos olhos de cada um tornava o dia radiante e o verde e amarelo das ruas ornamentadas o fazia colorido. Estava tudo pronto para a festa.

Bem cedo, o meu pai me chamou para assistir ao jogo com ele na casa de uma tia, já que nossa TV havia deixado de funcionar. Não queria desapontá-lo, mas assistir aquele jogaço no meio de um monte de adultos não me seduzia. Preferia ficar na pequena vila que morava, onde não faltava animação naqueles dias. Como a minha mãe ficaria em casa para cuidar da minha irmã, que estava com caxumba, tive autonomia para me desvencilhar do convite paterno. Além disso, TV não me faltaria, pois o Zé havia me convidado para ver a partida na casa dele. Zé era um menino um pouco maior e mais velho do que eu, que morava algumas casas depois da minha. Era o meu melhor amigo naquela vila. Torcer pelo Brasil ao seu lado me parecia muito mais divertido.

As horas demoravam a passar, mas o momento do jogo, enfim, chegou! A sala da casa do Zé estava lotada de adultos. Como todas as poltronas e cadeiras estavam ocupadas, o Zé e eu nos acomodamos na soleira da casa, que dava direto na rua, o que nos permitia ver a TV e sentir a energia da cidade ao mesmo tempo.

À bem da verdade, mal olhávamos para a TV. Ficávamos tensos, ansiosos e conversávamos o tempo todo sobre a partida, mas acompanhávamos bem pouco o jogo. De repente, ouvimos a sala explodir em gritaria. Gol do Brasil! Pelé! O Zé e eu saímos aos pulos pela rua. Enquanto do céu se ouvia o espocar de rojões por todo lado, no chão nós estourávamos biribinhas, também conhecidas como estalinhos. O Zé tinha uma lata quase cheia delas.

Algum tempo depois, vem o empate da Itália e a tristeza. Foi como terminou o primeiro tempo. Pela segunda vez naquela Copa, tive receio da derrota. A primeira havia sido na semifinal contra o Uruguai, quando sofremos o primeiro gol e ficamos atrás no placar por algum tempo. Porém, foi justamente a lembrança da vitória de virada naquele jogo que me trouxe de volta o otimismo. Prepare as biribinhas, disse ao Zé, pois vamos vencer!

Começa o segundo tempo. Vinte minutos se passam e nada de recuperarmos a vantagem no marcador. Confesso que já começava a ficar novamente preocupado. Mas vem um drible e um chute forte e certeiro de Gerson, bem no canto do goleiro italiano. Golaço do Brasil! A euforia foi ainda maior do que no primeiro gol. Deve ter sido por alívio. Foram pulos, berros, abraços, explosões de rojões por todo lado e biribinhas ao chão!

Poucos minutos depois, outro gol do Brasil! Jairzinho! O artilheiro do Brasil na Copa havia marcado em todas as partidas. Não seria na final que ele falharia. Viva o Furacão! Desta vez, até os adultos deixaram a sala e vieram à rua comemorar com a gente. A vitória, agora, era certa.

O quarto gol de Carlos Alberto, a poucos minutos do fim, foi saboreado como um aperitivo da festa que começara antes mesmo de acabar a partida. A vila quase inteira já estava na rua, eufórica. A lata de biribinhas do Zé já tinha se esvaziado, mas o ambiente estava repleto de alegria.

Quando trilou o apito final, o barulho dos rojões era ensurdecedor. Alguns vizinhos não aguardaram sequer a entrega da taça e deixaram a vila para comemorar em locais ainda mais movimentados. O Zé e eu fomos juntos, sem hesitar.

A pequena vila onde morava ficava no bairro da Liberdade, na região central de São Paulo. Não foi preciso caminhar muito para chegar numa avenida onde a festa fervilhava. Eu olhava para o céu e via um número incontável de balões juninos que aumentava à medida que o tempo avançava. Sem noção do risco que criavam, houve quem os tentasse acertar com rojões. Por sorte, eram ruins de pontaria e depressa foram contidos pela multidão em festa.

O buzinaço era constante. Pessoas formavam cordões humanos e invadiam a avenida para fechar o trânsito. Seguiam uns abraçados aos ombros dos outros, pulando e cantando enquanto o som das buzinas ficava cada vez mais intenso. Num certo momento, saíam correndo para as calçadas, metade para cada lado, liberando o trânsito. Depois, reorganizavam-se, seguiam até o meio da avenida e fechavam a passagem dos carros novamente. Repetiam a operação inúmeras vezes. Alguns conhecidos da vila entraram no cordão. O Zé e eu assistimos a tudo da calçada.

Quando voltamos à vila, extasiados, encontrei a minha mãe quase em desespero pelo meu sumiço. Alguns vizinhos até tentaram acalmá-la. Disseram-lhe que saí na companhia de adultos que cuidariam para que nada de mal me acontecesse, mas não adiantou. Amor de mãe é assim mesmo. Só quando me viu são e salvo se tranquilizou.

No fim, apesar do involuntário susto dado na minha mãe, a minha pequena escapada até valeu a pena, pois me propiciou ver de perto a grande festa do tricampeonato.

Aquela vitória memorável tornou o Brasil o maior vencedor do esporte mais popular do mundo. Era a afirmação de um jeito gingado, mestiço, alegre, criativo, ousado e abusado de jogar, que passou a ser visto até como uma forma de arte, conquistando a admiração de todo o planeta. O futebol brasileiro, nascido no seio das elites, foi apropriado pelos menos favorecidos e, a partir daí, transformado. Sagrou-se vitorioso por se fazer popular.

Muitos anos depois, ao relembrar da festa de 70, vejo que celebrar as glórias da seleção brasileira jamais será consequência da alienação, pois implica, igualmente, em exaltar a força e o talento dos brasileiros mais simples, sofridos e trabalhadores, que conseguem enfrentar as adversidades com criatividade, sem perder a fé e a alegria. O nosso futebol e a nossa seleção têm a ginga, o jeito e a cara do brasileiro.

A vitória numa Copa do Mundo não mudará o país. Não mudou em 70 nem mudará hoje. Da mesma forma, a conquista ou a perda de uma Copa não prejudica nem beneficia o governo ou a oposição. Não creio que alguém altere a sua posição política ou o seu voto em razão de uma eventual vitória ou derrota da seleção brasileira de futebol. Porém, as manifestações de amor pelo país a cada Copa fortalecem a nação pela união desencadeada.

Alguns países fortaleceram o sentimento de nação a partir de guerras com outros povos e muitas mortes, mas este, seguramente, não é o único caminho.

Muito precisamos aprender e ainda mais temos a fazer por nosso país, mas tal circunstância não nos impede de valorizar e festejar o Brasil e os brasileiros pelas vitórias da nossa seleção canarinho.

Assim como fiz em 70, a cada Copa grito com força:

Vai, Brasil!

Copa 1970 comermoração Pelé Pelé comemora o seu gol contra a Itália.

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