De ônibus na Copa

em 08/jul/2014 em Crônicas por Dennys Távora | Sem comentários »

Copa 1978 Polônia

 

 

por Dennys Távora

 

Se um jogo do Brasil na Copa do Mundo cai em um dia normal de trabalho, repete-se um ritual bem conhecido dos brasileiros: liberação antecipada do trabalho e do estudo a fim de possibilitar que todos possam voltar as suas casas ou se reunir com os amigos para torcer pelo Brasil. Já se tornou uma tradição!

Brasileiro é folgado? De modo algum! Somos um povo muito trabalhador. Apenas amamos a Copa do Mundo e seria impossível para quase todos nós nos concentrarmos no trabalho ou no estudo enquanto acontece um jogo da seleção brasileira na maior e mais midiática competição esportiva do planeta.

O problema é que o encerramento antecipado do expediente não resolve tudo. Será necessário ainda enfrentar o transporte público lotado ou o trânsito engarrafado, muitas vezes ambos, para conseguir chegar ao destino antes do início da partida. A situação é difícil para todos, mas para quem mora distante do seu emprego ou da sua escola, chegar na hora do jogo é um verdadeiro milagre!

Quando vejo pessoas ainda presas no trânsito a poucos instantes do início dos jogos do Brasil na Copa, sofro junto ao imaginar a ansiedade e a angústia de cada uma delas. Além do sentimento de solidariedade de quem compartilha a mesma paixão, nesses momentos me vem à cabeça a lembrança do dia em que fui obrigado a saborear o gosto amargo de tal experiência.

Foi em 1978, no ano da Copa do Mundo da Argentina e no dia do último jogo da fase de quartas de final. Naquela época, não havia eliminação em jogo único. As oito equipes classificadas na primeira fase se dividiam em dois grupos de quatro e os campeões de cada grupo disputavam a final, enquanto os segundos colocados se enfrentavam na disputa do terceiro lugar. O Brasil estava no mesmo grupo da anfitriã Argentina. Após ambos ganharem a primeira partida que disputaram nessa fase, ficaram no empate sem gols ao se enfrentarem. Caso ambos vencessem o terceiro confronto, a vaga para a final seria decidida no saldo de gols. O Brasil jogaria contra a Polônia e a Argentina contra o Peru. Naquele momento, o Brasil tinha um gol a mais de saldo do que o rival. A partida, então, era decisiva e a confiança brasileira era enorme. Porém, maior ainda era o meu desafio de voltar para casa antes do início do jogo, pois estudava num colégio da zona oeste e morava em um bairro da periferia da zona leste de São Paulo. Sabia da dificuldade, mas mantinha a minha fé inabalável tanto numa vitória do Brasil como no sucesso da maratona que estava prestes a enfrentar para assistir à partida desde o início.

Como é de praxe, fui dispensado das aulas duas horas antes do início do jogo. Seria tempo mais do que suficiente para os meus colegas chegarem às suas respectivas casas. Eu, contudo, precisava pegar um ônibus até o centro da cidade e outro para chegar ao distante bairro onde morava. Apesar da confiança, tinha medo de perder o começo do jogo. Se já existissem telões naquela época, teria a possibilidade de assistir ao jogo em alguma concentração na região central da cidade e voltar para casa só depois da partida. Seria uma opção mais segura. Entretanto, os telões só começaram a ser produzidos muitos anos mais tarde.

A realidade é que não havia alternativa. O solução era pegar o ônibus e encarar o trânsito. Então, após sair do colégio, aflito, eu corria, rezava e torcia para chegar à minha casa antes do jogo ter iniciado.

Apesar do congestionamento na Rua da Consolação, a primeira parte do percurso foi superada sem maiores contratempos. Cheguei ao centro dispondo ainda de uma hora e meia para chegar à minha casa. Fiquei otimista!

Para evitar as filas intermináveis no ônibus que costumava utilizar, corri até o Parque Dom Pedro II, onde havia mais opções e uma linha de ônibus onde os condutores tinham a fama de serem rápidos, embora tal escolha me obrigasse a fazer uma baldeação no meio do caminho. Situações extremas pedem soluções alternativas e criativas, pensei. Mesmo com mais uma troca de veículo para chegar ao meu destino, imaginava poder ganhar alguns preciosos minutos dessa forma.

Sou obrigado a reconhecer que não foi uma escolha inteligente. Com o trânsito congestionado na cidade inteira, condutores de ônibus com fama de Emerson Fittipaldi (Ayrton Senna ainda não era conhecido naquele tempo) nada poderiam fazer para me ajudar. O que vi foi um ônibus com fama de ligeiro se arrastar juntamente com os demais veículos numa Avenida Radial Leste completamente engarrafada, para o meu total desespero. Quando, finalmente, desci do ônibus para pegar outro que me levaria até o meu bairro, a partida já havia começado.

Estava mais perto de casa, mas ainda havia uma distância a percorrer. Felizmente, o próximo ônibus não tardou a passar. Prevenido, eu já ouvia a narração do jogo num pequeno rádio de pilha que carreguei comigo. Embarquei no ônibus abarrotado de gente com o rádio colado na orelha, a fim de escutar algo em meio ao barulho de motor, do trânsito e das pessoas excitadas para chegarem às suas casas.

Ao perceber que eu possuía um radinho de pilha, alguém gritou:

-Aumenta o volume para todo mundo ouvir!

Eu até atendi ao pedido, mas logo ouvi a voz de novo:

– Aumenta mais!

-Já está no máximo! – respondi-lhe.

Pediram-me insistentemente, então, que narrasse os lances da partida a fim de todos poderem saber o que se passava no jogo. Foi quando descobri que não tenho o menor talento para me tornar um locutor esportivo, apesar das incontáveis narrações das minhas próprias partidas de futebol de botão feitas ao longo da infância. Mas fiz o melhor que pude para não privar das emoções do jogo aqueles que sofriam ao meu lado no ônibus.

O tempo avançava rápido enquanto o jogo se desenrolava. De repente, lance de perigo a favor do Brasil. Com voz alta, alertei: -Falta perigosa para o Brasil. Nelinho vai bater.

Após alguns instantes de suspense involuntário, gritei forte: -Gol do Brasil!

Foi como se uma bomba explodisse dentro do ônibus, tamanha era a gritaria. Não sei como arrumaram espaço para pularem dentro daquele veículo abarrotado, mas todos pularam, e muito, além de batucaram no teto e nas janelas do ônibus aos gritos de Brasil, Brasil, Brasil! Era um ambiente de pura euforia. Eu olhava para a rua e via pessoas saindo de suas casas para soltar rojões, a fim de celebrar o gol da nossa seleção.

A vantagem no placar aumentou ainda mais a minha ansiedade, já que não estava longe de casa. Percebi que chegaria perto do final do primeiro tempo. Sequer lamentei, pois o meu maior desejo àquela altura era chegar o quanto antes. Pelo menos daria para ver os melhores momentos do primeiro tempo durante o intervalo.

Após alguns minutos, conclui a maratona e cheguei ao meu bairro, enfim! O primeiro tempo estava prestes a terminar. Era descer do ônibus e começar a correr. Porém, mal coloquei o pé na rua e ouvi um grito pouco entusiasmado de gol no rádio. Parei para ver quem o havia marcado. Infelizmente, a Polônia acabava de empatar o jogo. A alegria da chegada ao lar foi imediatamente substituída pela tristeza em virtude do empate dos poloneses.

Já diante da TV da sala, assisti aos melhores lances do primeiro tempo e ao segundo tempo inteiro, onde dois gols do Roberto Dinamite garantiram a vitória do Brasil. O problema é que a minha alegria, mais uma vez, durou pouco, pois a Argentina goleou o Peru por seis à zero, num jogo polêmico e suspeito, classificando-se à final. Ao Brasil restou jogar e vencer a disputa pelo terceiro lugar contra a Itália.

Novamente, não ganhávamos a taça. O jeito era esperar mais quatro anos para saber se reviveria a emoção de comemorar um título mundial de futebol. Àquela altura, não imaginava que o caminho até a conquista de uma quarta Copa do Mundo seria ainda mais longo, demorado e complicado do que o enfrentado por mim naquele dia para voltar à minha casa.

Mas a espera valeu a pena e novas Copas do Mundo foram conquistadas. Na hora da vitória, cada dificuldade enfrentada perde o seu gosto amargo, transforma-se numa deliciosa lembrança e passa a atuar como um tempero que aprimora ainda mais o sabor da nova glória alcançada.

Que ganhemos várias outras Copas, então, a fim de redimir o sufoco de todos aqueles que pelejam no complicado trânsito das grandes cidades brasileiras para chegar às suas casas a tempo de torcer fervorosamente pela nossa seleção!

Copa 1978A corrida em busca de uma quarta Copa seria longa

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