Judy Garland – O Fim do Arco-Íris

em 02/dez/2011 em Blog por Dennys Távora | 2 comentários »

No dia 19 de novembro, fui assistir o musical “Judy Garland – O fim do arco-íris”, dos prestigiados diretores Charles Moëller e Cláudio Botelho, que estreara na semana anterior no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro. Quem me conhece sabe o quanto aprecio teatro musical. Sou um apaixonado do gênero.

O texto é de Peter Quilter, que foi indicado ao Prêmio Olivier de melhor peça e venceu diversos outros prêmios na Inglaterra. Embora aborde a vida do mito Judy Garland., não é uma tentativa de realizar um musical biográfico. Ele retrata uma espécie de descida aos infernos de uma artista que, de fato, existiu, mas é tratada como uma personagem de teatro, e não como a figura central de um documentário.

Antes, do mesmo autor, outro texto igualmente premiado de Peter Quilter já havia sido montado no Brasil por Charles Moëller e Cláudio Botelho: A Gloriosa, com Marília Pêra como Florence Jenkins, “a pior cantora do mundo”. Agora, fazem a montagem de uma peça do mesmo autor que retrata uma fase da vida daquela que é considerada uma das maiores cantoras que o mundo já viu.

Por conta da proximidade criada desde a produção de “A Gloriosa”, os diretores brasileiros tiveram acesso ao texto de Peter Quilter há aproximadamente dois anos e se apaixonaram ao primeiro contato, adquirindo os seus direitos de produção antes mesmo da sua primeira montagem em Londres. Na Broadway, o espetáculo estreará apenas em março de 2012. É uma das raras oportunidades para o público brasileiro assistir um consagrado musical em palcos nacionais antes da sua estréia em Nova York.

O espetáculo retrata os últimos meses da vida de Judy Garland, já numa fase decadente da sua carreira, quando se encontrava debilitada física e emocionalmente pelo consumo exagerado de álcool e de drogas, pelas incontáveis pressões para manter vivo o mito que criaram para ela desde que interpretou a Dorothy de O Mágico de Oz, aos 17 anos, e por suas próprias inseguranças pessoais e profissionais, que a acompanharam em seus últimos dias até morrer de overdose, em 1969, aos 47 anos.

Diferentemente de outros espetáculos recentes de Charles Moëller e Cláudio Botelho, este musical apresenta um formato bastante enxuto, com apenas três atores em cena, mas com o tradicional cuidado de produção que já se tornou uma marca da dupla. Os cenários são inventivos e funcionais, o figurino é adequado, a iluminação é perfeita e os arranjos e a orquestra são impecáveis. Para a trilha do musical, foram incluídas algumas canções mais conhecidas do público brasileiro, como Get Happy, ausente da trilha original, e a versão em inglês da brasileiríssima “Insensatez”, de Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Norman Gimbel (How Insensitive), acrescentando um pequeno toque verde-amarelo ao espetáculo.

A trama se passa em grande parte do tempo na suíte de um hotel, que de uma hora para outra se transforma no palco da boate Talk Of The Town, em Londres, onde a artista se apresenta naquela que seria a sua última temporada.

O trio de atores é formado por Cláudia Netto, interpretando Judy Garland, Gracindo Júnior, como o veterano e fiel pianista homossexual Anthony, e Igor Rickli no papel de Mickey Deans, quinto marido e empresário da artista à época.

Cláudia Netto é uma experiente atriz de musicais. Já atuou em diversos espetáculos da dupla Moëller Botelho, tais como Company e Avenida Q, além de ter recentemente protagonizado o musical “O Rei e Eu”, no papel de Anna Leonowens. Mas é em “Judy Garland – O Fim do Arco-íris” que a atriz se supera. O gestual, a intensidade dramática equilibrada para interpretar um personagem em nítida decadência, mas que não perde a verve e o bom humor, e o seu espetacular desempenho vocal, demonstrado ao longo das 11 músicas que interpreta, revelam o quanto se dedicou ao papel e mostram a consagração de uma atriz madura. A sua atuação arrebata e emociona a platéia. Na cena final do primeiro ato, acomodado na primeira fila, completamente envolvido pela emoção e com o rosto transformado numa cascata de lágrimas, tentava me controlar para conter ao menos os soluços, de modo a não perturbar o momento igualmente mágico e tocante de quem perto de mim se sentava. Simplesmente arrebatador! Cláudia Netto brilha intensamente neste espetáculo! Só não digam que ela encarnou Judy Garland. “Não estou recebendo Judy Garland nenhuma!”, responde ela, em tom de brincadeira. “É trabalho mesmo!”

Gracindo Júnior faz o pianista homossexual Anthony. É um personagem fictício que, na realidade, simboliza os inúmeros fãs homossexuais que a acompanharam, apoiaram-na e idolatraram-na ao longo da sua mítica carreira. Como curiosidade, para ilustrar a estreita ligação de Judy com a comunidade gay, é oportuno dizer que o dia da sua morte desencadeou diversos movimentos pela liberação sexual. O arco-íris, inclusive, símbolo da comunidade gay, foi inspirado na canção “Over The Rainbow”, imortalizada por Judy em “O Mágico de Oz”. Mas dos acontecimentos ocorridos após a morte de Judy, o espetáculo não trata. É o ótimo desempenho de Gracindo Júnior que vale aqui registrar.

Igor Rickli, o jovem ator que se destacou no papel de Berger, no musical HAIR, também da dupla Moëller Botelho, que estreará em janeiro em São Paulo, desta vez não faz uso do talento vocal descoberto. Ele interpreta o polêmico Mickey Deans, um personagem inspirado numa figura real, que foi o quinto marido de Judy Garland e também acumulou as funções de empresário da atriz. Para alguns foi um oportunista e, para outros, alguém que fez companhia e apoiou Judy em seus últimos e mais difíceis momentos. Durante a peça, é nítida a rivalidade e a desconfiança recíproca entre ele e o pianista Anthony. Além de ter o “physique du rôle” ideal, Igor Rickli interpreta o personagem de forma consistente e convincente.

Em 2012, Charles Moëller e Cláudio Botelho farão estrear no Rio de Janeiro o musical “O Mágico de Oz”, que consagrou no cinema a jovem Judy Garland, então com 17 anos. Nada mais oportuno do que montar antes um espetáculo sobre uma fase da vida daquela que o estrelou.

“Judy Garland – O Fim do Arco-íris” poderia ser um excelente aperitivo para “O Mágico de Oz”, o que, por si só, já justificaria assisti-lo, mas é muito mais do que isso. Vale conferir!

 

Serviço:
Quinta às 18h – R$ 80,00
Sexta às 21h30 – R$ 80,00
Sábado às 21h, domingo às 20h – R$ 100,00

Temporada: 11 novembro de 2011 a 12 de fevereiro de 2012

Teatro Fashion Mall (Rio de Janeiro).
Estrada da Gávea, 899 / 2º piso – São Conrado
(21) 2422-9800/3322-2495.

Lotação: 474 lugares
Classificação etária: 14 anos
Duração: 120 minutos (com intervalo)

INGRESSOS:

Bilheteria do Teatro:
terça a domingo, das 15h às 20h.

Site Ingresso.com:
http://www.ingresso.com.br/br/teatro/porpeca.asp?T_IDCIDADE=00000002&Busca=1&IdEspetaculoBusca=00021029&IdCidadeCompra=00000002

2 comentários para "Judy Garland – O Fim do Arco-Íris"

  1. Sim, o espetáculo vale a pena! já fui 3 vezes!!! Ver todo o drama de Judy é bom, mas é melhor ainda ver o humor dessa lenda. ótimo texto!!!

    • Dennys Távora disse:

      Moyses, se morasse no Rio, faria como você! O espetáculo é belíssimo e tocante. Cláudia Netto esbanja talento numa atuação marcante! Aproveite mesmo! Um abraço.

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