SP deixa o sol entrar na estréia de HAIR!

em 16/jan/2012 em Blog por Dennys Távora | 2 comentários »

Num clima de grande expectativa, após vários meses de espera desde o final da temporada carioca, onde alcançou grande sucesso, recebeu elogios diversos e foi assistido por mais de 100.000 espectadores, o musical HAIR, dos prestigiados diretores Charles Moëller e Cláudio Botelho, estreou em São Paulo na última sexta feira, 13 de janeiro, no Teatro Frei Caneca.

O tempo transcorrido desde o final da temporada no Rio de Janeiro tornou inevitável algumas alterações no elenco, o que serviu para aumentar ainda mais a expectativa em torno do início da temporada paulistana. Havia quem se perguntava se HAIR poderia repetir em São Paulo o sucesso alcançado em terras cariocas.

Acompanhei a temporada carioca bem de perto. Desde a primeira vez que assisti ao espetáculo, HAIR me tocou enormemente. Foi paixão à primeira vista. Encantou-me a sua mensagem, a elevada qualidade vocal e artística de todo o elenco, as músicas maravilhosas e tão bem versionadas para o português, a nítida união do elenco, a energia que os atores trocavam com a platéia e a beleza do conjunto do espetáculo. Para mim, foi inevitável retornar à Cidade Maravilhosa diversas vezes para rever o musical que tanto havia me emocionado. Ao fim da temporada no Rio de Janeiro, para a minha própria surpresa, havia assistido HAIR catorze vezes!

Em tais circunstâncias, acabei afetivamente ligado ao elenco original de HAIR, mas acreditava ser possível me apaixonar também pelo novo elenco.

É que me recordava com perfeição de quando assisti ao espetáculo pela primeira vez. Naquela oportunidade, conhecia pouco ou nada de grande parte do elenco original e passei a amar aquela tribo e cada um dos seus integrantes. Lembrava-me, também, do período de audições para a formação do elenco de HAIR, quando mais de cinco mil atores se inscreveram, dois mil foram selecionados e setecentos foram ouvidos em audição. Ao final, o diretor Charles Moëller elogiava a qualidade dos candidatos e dizia ser possível escolher ao menos três elencos de excelente nível para montar o musical.

Comparações são sempre possíveis. Porém, no caso de HAIR, se o conjunto não sobressair, creio que o espetáculo não funcionará. Sendo assim, creio descaber comparações individuais entre os atores da temporada paulista e carioca. Todos possuem um impressionante talento e qualidade vocal. Isso é o que verdadeiramente importa!

Por tudo isso, cheguei ao Teatro Frei Caneca, na última sexta-feira , bastante ansioso. Afinal, dos trinta atores que chegaram para a temporada paulistana, dezesseis não estavam no elenco original, mas eu estava disposto a recebê-los com o coração e os braços abertos e bastante curioso em descobrir as novidades.

Mas não era somente eu que estava ansioso em assistir a estréia. Afinal, HAIR é quase um mito.

O musical, que construiu fama e marcou uma geração, estreou no circuito alternativo nova-iorquino em 1967 e alcançou a Broadway no ano seguinte. Em 2008, quando o musical completou 40 anos da sua estréia na Broadway, uma montagem comemorativa foi apresentada no Central Park, em Nova York. Em razão da ótima repercussão e na esteira das reações da população norte-americana à “guerra ao terror”, o antigo musical foi levado por seus produtores para a Broadway com uma roupagem nova e exuberante para conquistar o público atual. O sucesso foi estrondoso. No mesmo ano, a elogiada remontagem de HAIR concorreu a 8 prêmios “Tony Award” (o Oscar do teatro musical norte-americano), conquistando o de melhor remontagem de musical. Em 1979, HAIR ganhou uma versão cinematográfica pelas mãos de Milos Forman, que também alcançou grande sucesso e popularizou ainda mais as suas canções. O enredo e a trama do filme, porém, não seguem a exibida nos palcos em diversos aspectos.

No Brasil, a primeira montagem de HAIR, de Ademar Guerra, ficou em cartaz de 1969 a 1971 e revelou atores do quilate de Sonia Braga, Antônio Fagundes, José Wilker, Aracy Balabanian, Nuno Leal Maia e Ney Latorraca.

Muitos anos passados, a estréia da atual montagem em São Paulo teve casa cheia e vários amantes de musicais na platéia, como é normal acontecer nessas ocasiões. A expectativa só poderia ser enorme.

No palco, o cenário dá a idéia de um galpão de uma fábrica desativada e permanece fixo ao longo do espetáculo. Alguns outros elementos cênicos o completam, como uma kombi com pinturas psicodélicas e tambores pintados com ícones do movimento hippie, que são aproveitados de diferentes formas pelos atores ao longo no espetáculo. A orquestra se localiza numa lateral do palco e está sempre visível aos olhos do público. Lâmpadas orientais descem durante a execução de “Hare Krishna”, assim como uma cruz iluminada aparece durante a cena de alucinação de Claude, mas são poucas as alterações do cenário principal. As coreografias são frenéticas e eletrizantes, a iluminação valoriza as cenas e o adequado figurino recebeu premiações durante a temporada carioca. A farda utilizada por Hugo Bonemer, por exemplo, é original da época da guerra do Vietnã.

O enredo está centrado numa tribo de hippies de Nova York, nas personalidades de seus integrantes, nos seus dilemas e no peculiar estilo de vida deles. A trama, por sua vez, gira em torno do jovem Claude, um dos integrantes da tribo, que é convocado para a guerra do Vietnã e vive o dilema de atender ou não a convocação. No fundo, o tema central do musical é a paz e, sobretudo, o amor.

No dia da estréia, ao ter início o espetáculo, já nos primeiros acordes de “Aquarius”, o público começou a ser envolvido por uma atmosfera eletrizante. Muitos aplausos efusivos, urros, alaridos, assovios, risos e lágrimas foi o que se ouviu da platéia durante toda a apresentação. A emoção se fez reinante e a eletricidade parecia pairar no ar do Teatro Frei Caneca naquela noite. As boas energias iam do palco para a platéia e vice-versa. Impossível não ser contagiado! Como pedia a famosa canção, São Paulo deixava o sol entrar.

Destaque para Hugo Bonemer, que continua excelente como Claude, o jovem atormentado pelo dilema de seguir os princípios de paz e amor compartilhados com seus amigos hippies ou ceder às pressões de seus pais e atender à convocação para a guerra do Vietnã. O seu talento já havia me chamado a atenção desde a primeira vez que assisti HAIR. A sua expressão corporal, sobretudo na cena de alucinação no segundo ato, é impressionante! Também tem um grande potencial vocal e, ao meu ver, ainda evoluiu muito ao longo da temporada carioca. São de arrepiar as suas interpretações das canções “Manchester, England”, “Tenho mais vida” (“I got life”), “Hair”, “Para onde eu vou?” (“Where do I go”) e “Com fome” (“The Flesh Failures”). Agora, neste início de temporada paulistana, vejo que evoluiu também na parte dramática, que está mais emotiva, forte, intensa e, por conseqüência, marcante.

Fernando Rocha, que já fazia parte do elenco original, agora assumiu o papel de Berger, uma espécie de líder da tribo hippie. Na temporada carioca, foi o substituto desse personagem. Cheguei, inclusive, a vê-lo como Berger em uma das vezes que fui ao Rio. Gostei da sua interpretação, mas o que vi agora em São Paulo foi bem diferente do que assistira no Rio, e para melhor! O Berger do Fernando está mais intenso, debochado e safado do que antes. Também tem um jeito meio andrógino que tornou o personagem mais complexo e interessante. Tal ambigüidade se manifesta, inclusive, nas cenas de platéia, onde aborda igualmente homens e mulheres. Ele esbanja energia, sensualidade e talento. Nos solos, está excelente! Chega até a cantar de ponta-cabeça!

A excelente Carol Puntel continua como a idealista Sheila. Além das suas maravilhosas interpretações de “Tenho fé no amor” (“I Believe in Love”), “Fácil ser cruel” (“Easy to be hard”) e “Bom dia, Estrela” (“Goog Morning, Starshine”), que sempre me emocionam, agora faz também um belíssimo solo em “Hare Krishina”. Além das suas qualidades enquanto cantora, também se mostra uma excelente bailarina, o que já era conhecido do público de musicais desde “O fantasma da Ópera”, e ainda evoluiu muito na parte dramática, o que a credencia ainda mais como uma atriz de primeira linha do teatro musical brasileiro.

Agradável surpresa foi ver Kiara Sasso na pele da grávida Jeannie. É um papel muito diferente de outros que já fez nos diversos musicais que participou, muitos deles como protagonista e cantando bem mais solos do que em HAIR. Além de emprestar ao personagem todo o seu potencial vocal, também se destaca pela forma engraçada, mas não caricata, que compôs a personagem, uma grávida que anda todo o tempo “chapadíssima” e mal sabe o pai de seu futuro filho. É só ela começar a dizer algum texto que a platéia já explode deliciosamente em risos. Kiara está excelente como Jeannie, o que demonstra mais uma faceta do seu imenso talento!

Surpreendente, também, foi ver Estrela Blanco no papel de Crissy. A sua voz doce e agradável é uma carícia para os ouvidos. A platéia se comove ao ouvi-la cantar “Frank Mills”. A sua interpretação desta canção é incrivelmente envolvente. Impossível não se desmanchar em ternura quando ela chega ao verso “que ele disse pra mim um ‘oi’ que eu gostei”. Tocante, marcante e deliciosa a sua interpretação!

Reynaldo Machado continua como Hud, um negro alto, debochado e hilário, que simplesmente arrasa ao dançar e cantar “Cara de Macaco” (“Colored Spade“), além de arrancar muitos risos da platéia com as suas tiradas geniais.

Marcel Otávio segue no papel do adorável Woof.  Ele parece transpirar o amor nas suas formas mais diversas. É um personagem cativante e muito divertido. Está excelente na interpretação de “Sodomia” (“Sodomy“) e ainda melhor ao “incorporar” Mick Jagger. Simplesmente ótimo!

Juliana Peppe, como Dionne, compensa a sua pequena estatura com um impressionante potencial vocal. Ela já contagia a platéia na abertura do espetáculo ao cantar “Aquarius”, mas os seus potentes e perfeitos agudos são ainda melhores no final, em “Deixa o sol entrar” (“Let the sunshine in”). É algo de arrepiar!

Destaque também para Kotoe Karasawa, Mariana Galindo e Vanessa Costa na interpretação de “Negros” (“Black Boys”), e também para Jennifer Nascimento, Cássia Raquel e Janaína Zuba em “Brancos” (“White Boys”). Essas jovens atrizes incendeiam o teatro com muito talento, charme e energia. Cássia Raquel, aliás, esbanja talento vocal também em “Caminhando no céu” (“Walking in space”) e “Três-Cinco-Zero-Zero” (“Three-Five-Zero-Zero”).

Davi Guilherme está na pele da impagável Margaret Mead. Com o incrível talento vocal que possui, obteve aplausos em cena aberta em “Estou convicta” (“My conviction”). Ricardo Nunes, por sua vez, faz um estranho e divertido Hubert, que no musical é o marido de Margaret Mead.

A ótima e divertidíssima Bruna Guerin, que brilha a ponto de receber aplausos em cena aberta no primeiro ato, permanece como mãe de Claude. Conrado Helt, também do elenco original, fará na temporada paulistana o pai de Claude. Ambos, no segundo ato, emocionam ao cantarem lindamente  “Que obra de arte o homem é” (“What a piece of work is man”).

HAIR é o musical mais “democrático” que vi, como costumo dizer. Todos têm a oportunidade de mostrar o seu talento vocal em algum solo, por pequeno que seja, o que permite observar o elevado nível de todo o elenco, que também se evidencia na beleza dos coros.

Bruno Kimura, Carlos Martin, Daniel Nunes, Emerson Espíndola, Esdras de Lucia, Giselle Lima, Janaína Zuba, Jennifer Nascimento, Juliana Lago, Kassius Trindade, Renam Mattos, Rooney Tuareg, Sérgio Dalcin, Sthefanie Serrat e Vanessa Costa completam esse maravilhoso elenco com muito talento, abrilhantando o espetáculo.

Ah! E para quem está curioso em saber algo sobre a cena de nudez que fecha o primeiro ato, digo apenas que não economizaram a luz. Tal cena, forte pelo contexto da peça e bastante simbólica, é somente um detalhe desse maravilhoso espetáculo!

Após os agradecimentos, tudo termina num grande congraçamento, com os atores convidando o público a subir ao palco ao som de “Deixa o sol entrar”.

Ao final da apresentação de estréia, extasiado, o que percebi é que mais uma vez os diretores Charles Moëller e Cláudio Botelho acertaram em cheio na escolha do elenco. HAIR continua belíssimo!

Vale conferir. É imperdível!

LET THE SUNSHINE IN!

O sol entrou em São Paulo! Só resta desfrutar!

SERVIÇO:

Temporada até 29 de abril de 2012

Teatro Frei Caneca
Rua Frei Caneca, 569 – Shopping Frei Caneca, 6º andar
Tel: (11) 3472-2226 / 2229-2230

Quintas, às 21h. Sextas, às 21h30. Sábados, às 18h e 21h30. Domingos, às 18:00

Ingressos: R$130 (qui / sex) e R$ 160 (sáb / dom).

Vendas pela internet: http://www.ingressorapido.com.br

Duração do espetáculo: 130 minutos (com intervalo de 15 minutos)

Classificação etária: 14 anos

2 comentários para "SP deixa o sol entrar na estréia de HAIR!"

  1. Thania Tavora disse:

    Concordo em gênero, número e grau. 😀

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