Crônicas parisienses: “Le Pont des Arts”

em 22/jun/2012 em Crônicas por Dennys Távora | 10 comentários »

Não é a mais bela. Tampouco é a mais suntuosa. Longe disso! “Le Pont des Arts” é apenas mais uma dentre as trinta e sete pontes que cruzam o Rio Sena, em Paris.

De estrutura metálica formada em arcos, presa a pilares de concreto, possui piso de madeira e serve de passagem para pedestres. É, na verdade, uma passarela, ligando o Museu do Louvre ao “Intitut de France”, sede das academias francesas.

Na primeira vez que a vi, não gostei dela. Parecia-me rústica demais quando comparada a outras belas pontes que atravessam o Sena. Cheguei a evitá-la em todas as fotos que tirei, embora tenha me servido dela como mirante.  Preferia aquelas feitas de pedra e repletas de adornos, que me pareciam não só mais fortes como muito mais vistosas, belas e dignas de receberem evocações às artes em suas denominações, pois se mostravam verdadeiras obras primas.

A “Pont des Arts”, por sua vez, não passava de uma obra de engenharia eficiente, mas desprovida dos incontáveis recursos da arquitetura e da mágica beleza que o seu nome sugere.

Depois da minha primeira viagem para Paris, voltei para casa sem lembrança alguma da “Pont des Arts”, e não lamentei.

Quase um ano depois, às vésperas de novas férias programadas para Paris, fui ao cinema assistir a uma comédia romântica de Sydney Pollack, chamada “Sabrina”. Era baseada em um filme de 1954 com o mesmo nome, contendo diversas cenas rodadas na Cidade Luz, inclusive a última, que se passava justamente na “Pont des Arts”. Foi tiro e queda! A saudade de Paris me apertou o peito naquela hora e me fez sentir remorso do meu desprezo por aquela ponte. Na verdade, olhando bem, até que ela era bela. Não havia razão para tê-la evitado nas fotos!

Tal pensamento me acompanhou na saída do cinema e no caminho para casa. Por sorte, as minhas férias estavam próximas e novamente iria passá-las em Paris. Prometi a mim mesmo, então, que me dirigiria à renegada ponte assim que chegasse à Cidade Luz, a fim de pessoalmente lhe apresentar as minhas desculpas. Foi o que fiz! Para compensar um pouco o meu erro, pus-me a fotografa-la de todos os ângulos.

Pois bem, de desprezada, passou a ser a minha ponte preferida em Paris. É bem verdade que ela não carrega consigo os anos e a história da “Pont Neuf”, a mais antiga de todas que cruzam o Sena; nem a suntuosidade e a elegância da “Pont Alexandre III”, com suas luminárias, querubins e ninfas de bronze, além de detalhes e cavalos alados folheados a ouro. Porém, possui um charme peculiar que havia me passado despercebido. Generosa, acolheu quem antes a desprezou. Charmosa e paciente, soube aguardar a ocasião certa para ser notada. Não necessitou de adornos para me chamar a atenção. Bastou-lhe um pouco de tempo, que se fez saudade. Com a sua simplicidade, cativou-me. Pode não ter impressionado os meus olhos, mas tocou o meu coração, transformando o meu olhar.

Recentemente, casais apaixonados passaram a escrever os seus nomes em cadeados e os prenderem nas grades do parapeito da “Pont des Arts”. É um modo de simbolizar que estão definitivamente presos um ao outro. Em seguida, jogam as chaves no Sena, numa atitude, diga-se, nada correta do ponto de vista ecológico, tão em voga atualmente.

Deixando de lado a gafe ecológica, um pouco de romantismo é bem vindo, mesmo que repleto de ingenuidade.

Um dia, os cadeados presos na ponte serão retirados e outros os substituirão. O mesmo acontecerá com muitos daqueles amores simbolicamente atados na ponte.  Triste? De modo algum!

Se o amor pudesse ser materializado, estaria fadado a sempre perecer. Nada que é visível aos olhos da face, tais como um simbólico cadeado, será capaz de fazer um amor perdurar. Um amor pode ser despertado pelo que é visto, assim como é possível representá-lo de diversas maneiras, mas não durará se ficar preso à superfície do que é mais desfrutado pelos olhos do que experimentado pela alma. Até a exuberância da juventude é passageira. Se adornos e contornos podem chamar a atenção num primeiro momento, tendem a perder importância se não agregarem outros valores.

No último domingo, recém-chegado em Paris e cansado da longa viagem, cumpri o meu ritual de caminhar desde Montparnasse, passando pela Praça Saint-Germain-des-Près e seguindo pela Rua Bonaparte, até reencontrar o Rio Sena e a minha querida “Pont des Arts”. Pode não ser a mais antiga, a maior, a mais suntuosa, a mais elegante ou a mais adornada ponte de Paris, mas para mim se tornou a mais charmosa, amada e importante delas.

Apesar da silueta muitas vezes elegante de algumas pontes, que parecem até moças sedutoras a brincar com os pés na água, não creio que elas possuam uma alma. A “Pont des Arts”, contudo, tendo alma ou não e mesmo sem cadeado à mão, com certeza prendeu o meu coração.

Dennys Távora

10 comentários para "Crônicas parisienses: “Le Pont des Arts”"

  1. leils arantes de morais disse:

    leitura consistente e muito agradável !

  2. Aprovado como cronista! 😛
    As entrelinhas sempre são minhas maiores atraentes. Adorei!

  3. Maria do Socorro disse:

    Amei suas cronicas um beijão da mamãe.

  4. Mariângela Motta da Costa disse:

    Já publiquei em minha página no Facebook essa ponte.
    Queria um texto para acompanhá-la….busca sem sucesso.
    Agora achei!!!! Viva!!!!
    Adorei cada letrinha!
    Gostei muito da mãe coruja também…os dois estão de parabéns!

    • Dennys Távora disse:

      Obrigado pelas palavras gentis, Mariângela! Fico feliz que tenha apreciado a minha crônica. A minha mãe foi muita coruja (rs…), mas é um amor de pessoa, sem dúvida alguma! Paris e a Pont des Arts, por sua vez, são lugares que se tornaram muito especiais para mim. 🙂

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