Crônicas parisienses: “La Rue de la Gaîté”

em 10/jul/2012 em Crônicas por Dennys Távora | 2 comentários »

Alegria! É em busca dessa agradável sensação que sonhos são construídos, planos são elaborados e realizados, estuda-se, trabalha-se e diverte-se. Há quem a experimente ao vê-la nos olhos dos outros. Há quem não seja tão generoso assim. Todos, porém, de alguma forma, vivem a buscá-la.

Na primeira vez que visitei Paris, numa dessas adoráveis coincidências, posso dizer que me encontrei frente a frente com a alegria ou, pelo menos, com a rua que carrega esse nome.

Quase em frente de onde estava hospedado, no bairro de Montparnasse, havia uma estação de Metrô. O nome dela me chamou a atenção: Gaîté, que em português significa alegria. Era um sentimento que, naquele momento, correspondia plenamente ao meu estado de espírito. Pareceu-me um bom presságio ter a “Alegria” por perto durante as minhas férias.

Logo descobri que o nome daquela estação estava ligado ao da rua pequena e estreita que terminava ao seu lado: Rue de la Gaîté. Deve ter algo de especial este singelo logradouro para ostentar pretensiosamente o nome de Rua da Alegria, logo pensei. Com a curiosidade despertada, não tardei a explorá-la.

Após alguns passos lentos e atentos, já a atravessei e cheguei ao seu início. Ao olhá-la de frente, percebi um grande painel em estilo modernista pintado no alto da parede de um prédio. A inscrição do nome da rua naquele painel confirmava não ser aquele um lugar qualquer.

Não andara sequer 300 metros, mas diversos detalhes já me chamavam a atenção. Notei que havia seis teatros nessa rua. Tantos teatros numa via tão pequena é algo que não passa despercebido, ainda mais para quem ama tal arte como eu.

A Rua da Alegria abriga também muitos restaurantes e cafés tipicamente franceses, outros orientais, além de uma sorveteria e um pequeno restaurante italiano, que juntamente com alguns hotéis lhe dão um caráter cosmopolita.

Descobri mais tarde que, no século XIX, a “Rue de la Gaîté” acolhia vários bailes, cafés dançantes e cabarés, além dos teatros. Era um local dedicado ao lazer e aos prazeres. Após a segunda guerra, passou por um momento difícil, quando foi invadida pela prostituição, que deixou como herança os sex shops que ainda hoje existem no local.

Há alguns dias, constatei que um resquício do pós-guerra ainda sobrevive, quando fui abordado no início da “Rue de la Gaîté” por um Senhor elegantemente vestido.

– Bonsoir, monsieur! – Disse-me ele. – O Senhor deseja uma bela mulher?

– Bonsoir! Já tenho uma bela mulher que me espera longe daqui, monsieur. – Respondi-lhe, prontamente.

Com um sorriso no rosto, o elegante senhor não deixou por menos:

– Enquanto ela espera, posso lhe arrumar outra bela mulher.

Aos risos, diante da insistência, repliquei-lhe:

– Ça ne m’interesse pas du tout, monsieur!

– É uma pena! – Respondeu-me ele, com ar de consternação.

– É uma pena para o senhor, talvez, mas não para mim! – Disse-lhe, sorridente. – Bonne soirée, monsieur! – E fui-me embora, seguindo pela Rua da Alegria.

A despeito desse fato, o movimento alegre dessa rua à noite, com casais e jovens formando filas nos teatros e lotando os restaurantes e cafés do local, não deixa dúvida quanto à fidelidade dessa rua à atmosfera que deu origem ao seu nome.

Fico a imaginar se buscavam um pouco do clima alegre dos teatros e dos muitos cafés e cabarets da “Rue de la Gaîté” artistas como Picasso, Chagall, Miró, Dali, Degas, ou escritores do porte de James Joyce, Guillaume Appolinaire, Ernest Hemingway e tantos outros, do mundo inteiro, que fizeram ferver o bairro de Montparnasse nos chamados anos loucos do início do século XX.

Imaginação à parte, a presença incômoda da Tour Montparnasse, um imenso edifício envidraçado de 59 andares, insiste em me lembrar que “les années folles” do início do século XX já ficaram para trás. Os tempos são outros.  Entretanto, para mim, este pedaço de Paris ainda conserva um pouco da atmosfera de outrora. Basta estar atento e se dar a oportunidade e o prazer de respirá-la.

A verdade é que fiquei apegado à Montparnasse. Não é por outra razão que procurei alugar para as minhas férias atuais um pequeno apartamento em um prédio residencial do bairro, que me proporcionaria uma maior privacidade, além de um preço mais em conta. Ao examinar os espaços disponibilizados por uma empresa especializada nesse tipo de locação, encontrei um estúdio em um dos prédios da “Rue de la Gaîté”.  Não titubeei em escolhê-lo. A opção, sem dúvida, deu-se por razões sentimentais ligadas às lembranças que carrego de férias passadas. Quero ter a alegria novamente por perto? Claro!  Porém, hoje sei que isso independe do lugar onde possa estar.

A verdadeira alegria, na realidade, deve ter a sua morada dentro de cada um de nós antes mesmo de pretendermos encontrá-la em algum local, seja qual for. Quando se está bem consigo mesmo, entra-se em sintonia com o universo e qualquer lugar pode se tornar especial.

A “Rue de la Gaîté” faz jus ao seu nome, é inegável, mas os seus teatros, cafés e restaurantes não preenchem de alegria uma alma dela desprovida, assim como não é capaz de fazê-lo o pretenso prazer fugaz que me foi ofertado pelo senhor elegante há alguns dias.

Se a alegria tem me acompanhado nestas férias, não é pelo que está ao meu redor. Na verdade, ela já estava dentro de mim antes mesmo da minha chegada. Os motivos que a mantém viva no meu interior podem estar bem longe, como de fato estão, mas me acompanham onde eu estiver.  Aliás, estão comigo agora e assim permanecerão após a minha partida, mesmo sem ter mais por endereço a Rua da Alegria.

 

Dennys Távora

 

2 comentários para "Crônicas parisienses: “La Rue de la Gaîté”"

  1. Ahhhhh… Adorei o texto, por diversas razões que prefiro deixar para comentar na sua volta. Que chegue logo! 😉

    • Dennys Távora disse:

      Obrigado, sua linda! Em breve estarei de volta. Falta pouquinho tempo agora. Daí você faz os comentários diretamente para mim. 😉

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